Aromas

O olfato pode nos trazer lembranças mais vívidas que a visão e a audição

Ciência comprova que olfato é um poderoso gatilho de recordações autobiográficas e com capacidade de nos despertar as mais variadas emoções

“As memórias mais fortes que tenho costumam vir à tona por meio do olfato. Quando acontece, sou quase transportado a locais, pessoas e situações específicas ou abstratas por meio dos cheiros, que podem ser bons ou ruins”, reflete o programador Fred Amaral, 70, que enumera aqueles que são os odores que mais mexem com ele: “São os cheiros dos bailes, das festas e, sobretudo, do Carnaval, cujo cheiro é único, é indelével”. O empresário Hernane Ribeiro, 38, também reconhece nos aromas uma espécie de passaporte para as mais ternas lembranças e sensações. “Tem um cheiro particular que traz para mim uma memória afetiva muito gostosa, que é o cheiro de cloro. Quando criança, eu morava em um lugar que tinha piscina por perto e, sempre que ia para lá, passava o dia inteiro brincando e ficava com aquele odor de cloro impregnado na pele, mas feliz da vida”, diz, sorridente. Já a educadora física Raffaele Lima, 25, atravessou esse portal para o passado que o aspirar profundo pode nos permitir. “Ontem mesmo (no domingo, 24), quando fui almoçar, tinha canjiquinha, que é um prato que minha avó sempre fazia para os netos. O cheiro do ensopado me levou direto para a minha infância, me fez reviver aqueles momentos com ela… Sabe, quando ela fazia, ela colocava amor no preparo, e até essa sensação eu revivi”, garante. 

À sua maneira, cada um dos relatos colhidos pela reportagem em uma praça localizada na região Centro-Sul de Belo Horizonte confirma o que a ciência já estabeleceu: olfato é um poderoso gatilho de memórias autobiográficas. “O sistema olfatório tem ligações anatômicas e filogenéticas diretas com o sistema límbico no cérebro, que controla as emoções, que, por sua vez, modulam fortemente as memórias”, explica Patrícia Maria Rodrigues Gonçalves, que pesquisou as memórias dos cheiros para a sua tese de doutorado pelo Programa de Neurociência e Comportamento do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). 

A estudiosa comenta que – “apesar de ter sido importante para os humanos no processo evolutivo, sendo importante, por exemplo, para motivar comportamento de alimentação, comportamentos sexuais, comportamentos de agressão, fuga, submissão ou aproximação, como no caso do reconhecimento do cheiro da mãe pelo bebê” – o olfato foi um sentido subestimado pela ciência durante algum tempo. “Até meados do século XX, pesquisadores consideravam que o sistema olfatório humano tinha baixa eficácia, mas hoje já se tem conhecimento de que os seres humanos possuem uma excelente capacidade para detectar odores”, observa. 

Aliás, antes mesmo de existirem pesquisas com memórias olfativas, o escritor francês Marcel Proust já descrevia esse processo no clássico literário “Em Busca do Tempo Perdido”. Na obra, o personagem principal, já adulto, ao provar um bolinho madeleine, típica iguaria francesa, acompanhado de um chá de tília, tem a nítida sensação de voltar no tempo de sua infância com riqueza de recordações. Lembrando que o sabor de um alimento é uma composição entre o paladar, no qual sentimos os gostos salgado, doce, amargo, azedo e umami, e o olfato, que compõe toda a riqueza e diversidade de sabores, Patrícia cita que o fenômeno de reviver memórias pelos cheiros foi nomeado mais tarde como “fenômeno Proust” ou “efeito madeleine”, em homenagem ao escritor. 

Como a cultura afeta nossa percepção dos cheiros 

A pesquisadora em educação Josefina Baents, que desenvolve estudos sobre a relação humana com o estímulo olfativo, lembra que a memória associada ao cheiro é uma das mais duradouras, ultrapassando a capacidade da visão e da audição de reter referências. Ela acrescenta que os odores não pedem licença para chegar ao cérebro. “Estamos falando de partículas que voam e que se desprendem das coisas, de moléculas que entram pelo nosso nariz e acessam o sistema límbico, ativando potencialmente emoções e memórias”, avalia, destacando que essa experiência, embora universal, é completamente individualizada. “Um mesmo aroma pode despertar diferentes recordações, a depender da história de vida de cada um”, examina. 

Atenta ao fato de que os cheiros são percebidos de forma distinta por cada um, Patrícia Gonçalves buscou investigar como fatores culturais podem afetar a relação que fazemos entre o aroma e as emoções e memórias despertadas por ele. Para isso, a estudiosa ouviu pessoas de todas as regiões do Brasil e traçou análise entre os cheiros e toda a diversidade do povo brasileiro.  

“A percepção olfativa é predominantemente determinada por aprendizagem e história pessoal e possui, portanto, suas idiossincrasias. No entanto, os cheiros relacionados a memórias autobiográficas individuais são influenciados pelo ambiente em que o sujeito vive, assim, podem pertencer às memórias regionais da coletividade em que ele está inserido. No meu estudo, a primeira intenção foi analisar se havia diferenças entre as memórias olfativas das cinco regiões brasileiras, mas também se havia um padrão unificado de memórias do país”, explica. 

“A comparação entre as regiões brasileiras mostrou uma diferença significativa da região Sudeste, com maior número de termos para se referir a memórias de infância e adolescência do que as demais regiões. Analisando-se categorias de respostas, as regiões Norte e Nordeste se destacaram citando mais cheiros de perfumes, mencionando marcas ou perfumes de pessoas conhecidas”, acrescenta a pesquisadora. “Na pergunta sobre cheiros que lembram períodos do dia, o café foi destaque. Para cheiros que lembram sentimentos ruins, o mais citado foi o cheiro de hospital. Os cheiros associados às memórias de casa foram os de limpeza e lavanda”, estabelece.  

“Chuva e terra molhada foram frequentemente citados como odores relacionados às memórias autobiográficas da população estudada. No entanto, os dois termos podem se referir ao mesmo odor. Esse odor, amplamente reconhecido e encontrado principalmente em regiões áridas, associado às primeiras chuvas que caem no solo após um período de seca, foi denominado pelos estudiosos de ‘petrichor’. A relação entre petrichor e lembranças agradáveis pode ser uma resposta adaptativa, pois esse cheiro indica o fim da estação seca e o início do período de abundância e colheita. O Brasil é um país extenso, situado em uma área predominantemente tropical, com clima alternadamente úmido e seco, proporcionando muitos momentos de liberação do cheiro petrichor”, conclui. 

Fonte: O Tempo

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